Universo de afetos e cores

 

 

Aos 50 anos de carreira, J. Cunha tem primeiro livro lançado com o resumo da sua obra

No dia 6 de abril (quarta-feira) o artista visual J. Cunha lança seu primeiro livro, O Universo de J. Cunha, pela Editora Corrupio. Com a curadoria do professor, pesquisador e artista visual Danillo Barata, a publicação perpassa diversos aspectos do fazer artístico de Cunha que, este ano, completa 50 anos de carreira. O lançamento acontece no Museu de Arte da Bahia (MAB), a partir das 19 horas.

Para J. Cunha o livro é o reconhecimento do conjunto do seu trabalho que, ao longo dos anos, atravessou diferente campos. “Eu, desde cedo, via grandes artistas com suas obras cristalizadas, tinha aquilo como se fosse um coroamento da noção do valor que a arte pode ter para uma comunidade. Agora, com o livro, com esse conjunto de obras reveladas, vou poder dialogar com outros olhares”.

Responsável, entre outras coisas, pela identidade visual do bloco afro Ilê Aiyê, J. Cunha é um artista de múltiplas possibilidades que atua como artista plástico, figurinista, cenógrafo e designer. Isso dá para sua obra uma gama de artefatos como pinturas, objetos, ilustrações, estampas para tecidos, cartazes, capas de discos, figurinos, cenários, instalações. “Todos os meus trabalhos estão expostos no livro. E como a publicação é uma forma de deslocamento, minha obra vai voar”.

Para o antropólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Kabengele Munanga, o livro mostra a tentativa de J. Cunha em entender e interpretar o mundo e a sociedade em que vive. “As cores vivas, as linhas retas, curvas, círculos, espirais gráficos, zigue-zagues, formas geométricas, enfim todas as imagens que atravessam a arte de J. Cunha trazem além do estético, mensagens humanas, sociais, educativas, históricas e políticas; o que o projeta no tempo histórico e no espaço físico e social do mundo e da sociedade a qual pertence”.

Territórios afetivos

O livro “O Universo de J. Cunha” é dividido em seis sessões que, segundo o curador Danillo Barata, procura dar visibilidade à dimensão da produção do artista. Barroco Safado; Mutum; Homem Pássaro; Sertão e Luz; Carnavália; Áfricas e Códice tentam dar conta da forma como a arte de Cunha se apropria de diversos territórios afetivos como o indígena, o africano, o modernismo baiano, o sertão, o tropicalismo baiano.  Em um universo povoado de índios, caboclos, ciganas, rainhas e reis africanos, Cunha utiliza de dispositivos tradicionais e contemporâneos e se mostra um criador sem limites.

Para o historiador Roberto Conduru, da Universidade Federal Fluminense, a obra de J. Cunha amplia a noção de arte popular e é parte do processo histórico que culmina nas experimentações artísticas da Bahia atual. Conduru diz que Cunha trabalha com uma abundância de signos com os quais discute tópicos sociais e questões políticas, que explora com muitas cores e uma luminosidade intensa. “Ao desdobrar a pintura em objetos de tipos diversos e como várias finalidades, Cunha ultrapassou divisas, borrou as fronteiras entre os domínios de atuação”. O que mostra sua versatilidade em elaborar de capas de discos a cenários de espetáculos de dança, sempre deixando sua marca autoral.

O artista

Cunha nasceu na Ponta de Humaitá, na Península de Itapagipe, em Salvador (Bahia), em 1948. Descendente de bantos africanos e de índios kariris, filho de mãe sertaneja de Canudos e de pai descendente de ciganos da Armênia, todas essas territorialidades afetivas estão impressas em sua obra.

Ao longo dos seus 50 anos de uma intensa atividade artística atua como figurinista, designer, cenógrafo, bailarino. No seu itinerário formativo participou do grupo folclórico Viva Bahia, criado pela etnomusicóloga Emilia Biancardi; de suas viagens por Angola trouxe as bases para a identidade visual do carnaval e do bloco afro Ilê Aiyê; fez figurinos para diversos espetáculos, inclusive assinou cenário e figurino para o Balé do Teatro Castro Alves e para o show O Canto da Cidade, da cantora Daniela Mercury.

 

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